Tudo, menos um prêmio — ou: uma lista de coisas bacanas em 2020 (parte 1)

2020 foi um ano muito peculiar.
Foi um ano que nos puxou o tapete e, enquanto estávamos caídos, nos bateu com o mesmo tapete, nos deixando cheios de hematomas, crise de rinite e sem chão.

No meio de todo o caos que foi esse ano, os artistas da cena precisaram se reorientar e pesquisar novas formas de lidar com o teatro — testar os limites, descobrir novas convenções, investigar novas estéticas e formas de fruição e comunicação com o outro.

Passados o estranhamento inicial e a recusa, parece que conseguimos nos emancipar do debate reducionista sobre se isso é o ou não teatro (spoiler: é) e conseguimos olhar com mais profundidade sobre as coisas que estrearam este ano e o que a incursão dos artistas no campo do digital pode significar para o teatro a longo prazo.

Assim, este texto não é um prêmio (mas juro que se eu tivesse grana, premiava todo mundo com barras de ouro que valem mais do que dinheiro, pra todo mundo poder investir no próprio trabalho…imagina que sonho? Mas não nasci rico, então a gente que lute), mas sim uma lista de trabalhos particularmente interessantes que eu assisti nesse 2020 muito louco.

Sobretudo, esse texto é uma vontade de conversar sobre teatro, e o teatro que estamos construindo, juntos.

ONDAS

Talvez a gente possa concordar que o teatro online em 2020 veio em ondas: a primeira, por volta de março/abril, foi composta fundamentalmente por trabalhos analógicos adaptados ao online — leituras online de textos escritos pré-pandemia ou apresentação de monólogos e cenas nas lives do Instagram (lembra? live? faz tempo,né).

A segunda onda, iniciada em meados de abril/maio, compreende trabalhos já elaborados para o digital: explorações em plataformas de videoconferência , players de música e mensageiros que começavam a investigar as potências poéticas do on-line, antes considerado árido e, em boa medida, antônimo ao próprio teatro.

A partir de agosto, alguns teatros e centros culturais retomaram suas atividades e passaram a transmitir espetáculos diretamente de seus palcos. Estas obras agora passavam a contar com recursos indisponíveis àquelas que eram produzidas a partir da casa dos artistas: desde uma equipe técnica mais robusta a uma excelente aparelhagem de luz. Aqui são dignos de nota o Teatro Porto Seguro, o Teatro Vivo e o canal de Youtube do Sesc, que tem mantido um ritmo de transmissão de três espetáculos por semana direto de suas unidades, e mantido online um extenso catálogo de registros de peças de teatro. Se isso impactará nossos hábitos de consumo — passaremos a ver gravações de peças com a mesma naturalidade que ouvimos gravações de música no Spotify? — é assunto para outro texto.

Neste, vamos falar de ursos pandas.

PANDAS NUMA VHS

Mais ou menos quando tudo ainda era mato, Pandas ou Era Uma Vez Em Frankfurt e Tudo Que Coube Numa VHS foram dois dos primeiros trabalhos que levaram o online a sério.

Pensados especificamente para o online, ambos auxiliaram a pavimentar alguns dos caminhos pelos quais outros espetáculos passariam em 2020 — e quanto mais peças estreavam, mais e mais novos caminhos eram inaugurados.

Sucesso de público e crítica, com diversas temporadas bem-sucedidas ao longo do ano (se você é do teatro, duvido que você não tenha ouvido pelo menos 3x “e aquela do Magiluth, você assistiu?” esse ano), ambas auxiliaram a consolidar a seriedade dos trabalhos digitais, no Zoom ou em multiplataformas, e serviram, de certa forma, como o canário-da-mina do teatro online: é possível e provável que o cenário atual fosse consideravelmente diferente caso Pandas e VHS não tivessem sido tão bem-sucedidos.

Pandas ou Era Uma Vez Em Frankfurt

ESTÉTICAS MASSA

Ao meterem as caras no online, artistas puderam investigar estéticas e visualidades de um jeito que seria completamente diferente e mesmo completamente impossível no analógico.

Pensemos, por exemplo, em Dogville, mais especificamente nas sessões comemorativas da peça que rolaram no segundo semestre de 2020: ao misturar gravações de diversos espetáculos, em variados palcos e com diferentes elencos (mesclando tudo isso na mesma cena, algumas vezes), com registros dos bastidores e cenas refeitas no Zoom especificamente para as sessões especiais, o espetáculo conseguiu adicionar uma camada épica extra àquilo que já era discutido na sua versão analógica.

Se o Dogville, o filme, flertava com o teatro, e Dogville, a peça, flertava com o cinema, a versão online dialogava com o audiovisual e com o cênico, aproximando-se, afastando-se e rompendo com ambos num jogo de negação e aceitação bastante instigante.

Da mesma forma, Peça, trabalho de Marat Descartes e Janaina Leite discute o próprio conceito de presença no teatro (analógico e digital) ao misturar vídeos pré-gravados, truques de edição e performance online. Embaralhando o tempo e constantemente confundindo/surpreendendo o espectador, foi um dos primeiros trampos a radicalizar com a noção de “ao vivo” para fomentar um debate interessante sobre “presente” — tanto o estado de presença quanto a noção temporal.

A versão reimaginada de O Desmonte se valia de filtros, sobreposições e correção de cores para apresentar, visualmente, o universo de seu protagonista. Se muito se mantinha similar à versão analógica da peça, coisas novas e muito ricas surgiram na digital: o uso constante e cheio de significado do roxo e a inclusão de Saturno no céu de São Paulo potencializam o tom fantástico da obra.

Falando em fantástico, chegamos, por fim, a Ôma. O chamado “ex-petáculo” das Ultravioleta_s finca os dois pés no campo expandido do teatro e fagocita os games, se valendo de uma estética 8-bit para criar imagens e propostas impossíveis no analógico. Seja descobrir a saída de um labirinto de gelo, a possibilidade de caminhar pelas estrelas ou a necessidade de vencer, no soco, um monstro grotesco e gigante, as coisas que ocorrem em Ôma só ocorrem porque ele está ali no digital, na fronteira entre teatro e videogame, sendo os dois ao mesmo tempo agora.

Correndo o risco de ser repetitivo, quero deixar registrado aqui que minha maior pira em relação ao teatro online é justamente essa: a possibilidade de termos experiências e respostas estéticas que são exclusivas dessa modalidade. Muito mais do que tentar debilmente emular as potências do teatro analógico, a força do digital reside em ter meios de fruição únicos. Veja qualquer um dos exemplos citados aqui, e veja Ôma: o modo como, ao olharmos pela janela do apartamento do avatar que controlamos, vemos uma paisagem apocalíptica, ou o modo como não podemos sair do apartamento do personagem, por mais que tentemos… tudo isso extrapola a tela do computador e reverbera no mundo real, é uma resposta engenhosa das atrizes àquilo que vivemos e enfrentamos em 2020. E é uma resposta que, do jeito que foi formulada, só cabe no digital — a menos que você tente prender todos seus espectadores num ambiente fechado, mas por razões de segurança e legais, eu realmente desaconselho que você faça isso.

Mas aí já estamos falando da imersividade no teatro online e da agência dada ao fruidor. E isso é tópico para os próximos textos.

ÔMA

***

Esta é uma série de posts nos quais eu quero citar os trabalhos que eu vi esse ano e sobre os quais eu gostaria de conversar a respeito. Não quer dizer que nenhum desses trabalhos é melhor do que aqueles que não são citados aqui — Dioniso me livre de eu ser a pessoa que vai dizer o que é melhor ou pior no teatro.

Essa série é pra tentar levantar uma conversa. Sobre os trabalhos citados aqui e sobre os trabalhos que eu não citei — sinta-se a vontade pra falar de outros trabalhos, sobretudo aqueles que você achou esteticamente interessantes.

NOS PRÓXIMOS POSTS — Imersividade e agência; dramaturgias massa; se a gente sobreviver a 2020, dá pra arriscar algum palpite sobre 2021?

Fiquem ligados e não me deixem flopar.

textos reflexivos de Fernando Pivotto sobre teatro que são tudo, menos uma crítica

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