No mês passado eu fiquei sabendo de um encontro virtual proposto pelo setor educativo de um museu chamado “a insistência de estar junto”.
Esse título ficou na minha cabeça, sobretudo, poque parece resumir bem o momento que vivemos e as iniciativas de teatro tecnomediado (ou online, ou virtual, escolha sua predileta): há, me parece, a insistência das pessoas que produzem essa qualidade de teatro, em ficar junto das outras pessoas através da arte. Uma insistência em se encontrar através do teatro, e de se encontrar com o teatro nesse novo universo.

Alguns espetáculos inclusive levam a investigação do encontro um pouco mais adiante, criando estruturas dramatúrgicas onde ver o espectador, incluí-lo na experiência e dar a ele alguma agência sobre o espetáculo é essencial para a experiência. Caso Cabaré Privê faz isso, gameficando o teatro e colocando o espectador na posição de jogador; Clã_Destin@ , dos Clowns de Shakespeare, parte de uma proposta dramatúrgica que desemboca numa festa tão automediada que em certo momento independe da presença do elenco; A Festa de Aniversário Para O Amigo Que Foi Para Dublin, o melhor espetáculo estreado esse ano (e o fato de eu ser o diretor da peça e autor desse elogio é mera coincidência) parte de uma festa para incluir o espectador dentro do universo ficcional proposto. Todas essas iniciativas parecem dizer a quem assiste: “sim, estamos te vendo”. Sim, você está aqui de verdade. Sim, estamos procurando jeitos de estarmos juntos.

Vazante, d’A Digna, que reestreia esse sábado depois de uma bem-sucedida primeira temporada, se inscreve nesse grupo também.

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Partindo da festa de aniversário de duas irmãs, A Digna investiga não só a festividade e os meios de incluir o espectador nela, mas também as complexidades culturais, sociais, de classe e de gênero que configuram Kassandra e Gyselle, as aniversariantes — e por extensão, não só elas.

Quando A Digna fala dessas personagens que são mulheres, e que cresceram numa estrutura específica nos anos 1980, não é só das duas que está falando, mas de uma série de violências e vivências que podem ser reconhecidas por outras mulheres.

Quando fala da morte da mãe delas, fala para além dessa morte, e fala das insensibilidades que cercam essa morte, fala das estruturas que autorizaram essa morte que era evitável. Não vou dar muitos spoilers. Se você assistiu, acho que você entendeu meu ponto (e me conta sua visão, por favor). Se você não assistiu, compre o ingresso, assista, volte aqui e me conte sua visão.

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Uma coisa que eu gosto em Vazante é a investigação do delicado e do sutil num ambiente tão pouco dado a silêncios como a plataforma de videoconferência, e em ambientes tão pouco controlados como a casa de cada um dos até 30 indivíduos que assistem à obra.

O começo, por exemplo, que convida as pessoas a ficarem em silêncio, a aquietarem, acho uma tática interessantíssima para subverter o tempo-ritmo acelerado dos dias de hoje e, sobretudo, da internet. Vários espetáculos que eu tenho assistido propõem um tempo mais acelerado (e eu adoro isso, sou muito adepto desse tempo a milhão), então o contraste proposto em Vazante é bastante interessante e quando funciona (“defina funcionar”, eu sei…) funciona bem.

Gosto sobretudo do momento de silêncio antes de começar o espetáculo — ou melhor, que começa, que inaugura o espetáculo — porque é uma experiência coletiva, um tipo de convite à ação, de instaurar uma atmosfera coletiva que vibra da casa de cada um e que chega nesse lugar virtual onde o espetáculo ocorre e as presenças se encontram.

É um jeito de estarmos juntos, me parece.

VAZANTE

Dramaturgia: Victor Nóvoa
Elenco: Ana Vitória Bella e Helena Cardoso

De 10 a 31 de outubro. Sábados, 20h
Ingressos aqui

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