Sobre “Tudo O Que Coube Numa VHS”

Como eu escrevi no meu texto anterior, sobre Pandas ou Era Uma Vez Em Frankfurt e como direi por ainda mais algum tempo, ando fascinado por essas iniciativas artísticas tecnomediadas que andam surgindo em tempos de pandemia, isolamento social e fim do mundo.

Primeiro, porque acho instigante ver artistas pesquisando novos modos de criar arte, de se relacionar com o público e de investigar os potenciais artísticos de plataformas, aplicativos e sistemas que não foram desenvolvidos para isso (mas que foram reapropriados pelos artistas, e acho que há aí uma ruptura interessante de ser observada) e de driblar suas limitações. Segundo, porque coloca a gente, pessoas que escrevem sobre as coisas que assistem, num lugar deliciosamente desconfortável: como escrever sobre essas novas iniciativas?

Se essas novas possibilidades performáticas/cênicas vão surgindo à medida que vão sendo criadas (o caminho se faz ao caminhar), também nós, críticos, precisamos descobrir jeitos novos de escrever sobre elas. Como escrever sobre o que anda acontecendo? Sob qual prisma? Com quais parâmetros? Comparado a quê? Veja, se a crítica (graças a Dioniso) já conseguiu se desvencilhar do isso é bom, isso é ruim, isso vale três estrelas, isso nenhuma, agora estamos nesse novo momento onde nos pegamos pensando “bom, como eu começo a elaborar algum pensamento a partir desse espetáculo (?)/dessa performance (?)/ dessa ação (?) que eu acabei de assistir (?)/da qual eu acabei de participar (?) ?”. É um lugar bastante desconfortável. E é uma delícia.

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Isso posto, é claro que este texto não vai, nem quer, dizer se Tudo O Que Coube Numa VHS é bom ou não é. O que é bom, afinal de contas? E o que é bom nesse contexto? (Mas caso você esteja muito curioso: Tudo O Que Coube Numa VHS é bem legal, sim).

Bom, falemos agora sobre a experiência: Tudo O Que Coube Numa VHS é um evento multiplataforma, cuja dramaturgia se desenvolve via ligação telefônica, áudio de whatsapp, e-mail, YouTube, Instagram e Spotify, e pelas quais um ator do Magiluth vai te orientando.

Se alguns espetáculos que estavam previstos para estrear nos palcos sofreram algumas perdas ao migrarem direto para as lives de Instagram, com todas suas travas estéticas e tecnológicas, se saíram melhor as ações que já foram planejadas especificamente para as plataformas que as hospedam — é o caso de Pandas, no Zoom, e de VHS, agora.

Narrando uma história de amor, VHS salta de app em app para desenvolver o relacionamento entre o narrador e seu interlocutor, da mesma forma que brinca com isso para nos colocar na situação dos personagens. Em certa medida, somos tanto a plateia que observa o desenrolar da relação quanto o objeto do amor do narrador, ao passo que vamos ouvindo áudios e músicas que fazem parte da construção deste relacionamento e que são enviados especificamente para nós.

Nisto , VHS brinca com tempo e presença, assuntos recorrentemente discutidos hoje em dia. Presença porque, por mais que eu não esteja dividindo o mesmo espaço que o performer que me acompanhou ao longo da experiência, eu e ele conversamos, eu e ele trocamos ideia via telefone, houve a inauguração de algum espaço virtual onde nós estivemos presentes. Isso já dá uma boa brisa.

E tempo porque, recorrentemente, presente e passado se misturavam: um presente mais imediato, onde conversamos por telefone, outro presente (dramaturgizado, ensaiado) onde ele me enviava áudios gravados na hora, um passado recente onde habitam os vídeos pré-gravados e editados que eu recebia e outro passado ainda mais distante, de onde vinha uma foto de 2018 e prints de um fotolog.

Tem muita força esse espaço artesanal e sutil (a interpretação um pra um, o performer fazendo aquela sessão só pra mim — ou melhor, só comigo) que habita no meio de toda essa situação de tecnoconvívio, de links e virtualidade, que contrasta muito com a frieza dos apps. Pra quem argumentava que teatro é presença, talvez essa presença, que ainda é virtual e distante mas que não é mediada por uma quarta parede convencionada seja um jeito de repensar a questão.

E tempo porque existe esse presente performático de VHS que inclusive vai ressignificando fotos de 2005 e de 2018, de uma época onde não existia pandemia, nem isolamento, nem sequer VHS. Passado e presente do performer se misturam ao do personagem e ganham novos contornos e camadas. No domingo, quando acabou a sessão que eu acompanhei/da qual participei, me peguei olhando uma foto antiga de um performer que eu não conheço direito mas que eu parecia conhecer, porque havia ali uma espécie de bifurcação dramatúrgica: era uma foto de um performer que eu não conhecia direito até a hora em que ele me mandou o link e disse que na verdade aquela foto também fazia parte de uma realidade paralela onde aquela pessoa amava outra pessoa e aquela foto era uma prova da relação deles.

Depois, passei o resto da noite pensando num ex meu que eu tenho suspeitado que morreu, pensando que dezenas de milhares de pessoas morreram numa pandemia, pensando que meu aniversário é esse final de semana e eu não vou poder estar junto dos meus amigos, pensando que eu tô morrendo de vontade de ensaiar alguma coisa e de rolar suado com roupa de ensaio num tablado e que isso vai demorar um tempinho pra voltar a acontecer.

Tenho a impressão de que uma obra é boa quando ela me dispara questões e dúvidas sobre outros temas; então nesse sentido, Tudo O Que Coube Numa VHS é bem pertinente — fiquei brisando sobre a vida, sobre a arte, sobre a crítica... Mas também fiquei pensando que o que mais me pegou foi a poesia e a delicadeza presentes nesse trabalho dos caras do Magiluth. E me dei conta de que, puta merda, desde que a pandemia começou a comer solta, eu tenho sido tão pouco poético e delicado — e faz falta, né?

Tudo O Que Coube Numa VHS

De terça a quinta, a partir das 19h, até 31/05. Maiores informações sobre horários, datas e valores, nas páginas do grupo

Criação e Produção: Grupo Magiluth
Direção: Giordano Castro
Dramaturgia: Giordano Castro
Performers: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Pedro Wagner
Design de som: Kiko Santana
Vídeo: Juliana Piesco

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