A primeira coisa que eu pensei quando li que o livro Pós-F: para além do masculino e do feminino ia ser adaptado para o teatro foi “como???”.

Composto por uma série de textos (crônicas, trechos de dramaturgias etc) que versam sobre feminino, masculino, assédio, relacionamentos tóxicos, amor, maternidade, liberdade e outros assuntos complexos, o livro apresenta uma miríade de reflexões de Fernanda Young sobre questões pertinentes à vida contemporânea. Isso resulta numa leitura deliciosa (ela era uma escritora foda) e num livro muito bem produzido: a diagramação, a variação das fontes, as cores das páginas, os desenhos… tudo isso imprime um ritmo e um caos que são lindos. Funciona muito bem na página. Mas, no teatro?

***

Se o caleidoscópio de pensamentos resulta numa boa leitura, a transição bem-sucedida para o palco não é garantida: os riscos de virar uma leitura comentada ou um TEDTalk mais artístico (opções, a meu ver, menos interessantes) são grandes, com diversas armadilhas no caminho do livro pro teatro. Se Pós-F , projeto de Caetano Vilela, Maria Ribeiro e Mika Lins não evita todas elas, passa ao largo da maioria.

Aqui nesse texto que é tudo, menos uma crítica, acho que vale a pena pontuar as coisas que mais me chamaram a atenção na sessão que assisti.

Primeiro, me parece que vale a pena pontuar que Maria Ribeiro encontra em si um estado performativo que eu acho que contribui bastante para o projeto. Digo estado performativo porque não tem necessariamente a construção de uma personagem, mas a evocação de um estado de fala, de transmissão de ideias, de se reconhecer no que está sendo dito e assim confundir autora-personagem-intérprete, e eu particularmente acho essa proposta bastante arrojada.

Do mesmo jeito, acho essencial que a equipe trate o material original com o devido respeito, e não com reverência excessiva. Cito como exemplo a cena em que Maria, em vídeo gravado, discorda de uma passagem do livro. Esse é um dos momentos do espetáculo que eu mais gosto, justamente porque emancipa Pós-F, a peça, de Pós-F, o livro e coloca as coisas num novo contexto.

Outro motivo pelo qual essa é a minha cena predileta é pelo uso da tela dividida, de passado e presente, da presença da atriz em cena compartilhando a tela com a atriz gravada. Acho essa uma das coisas mais massa desse teatro virtual que temos assistido atualmente, a possibilidade de borrar as fronteiras com o audiovisual, de se apropriar de tecnologias e recursos e fazer coisas que não são possíveis no teatro analógico — ou, pelo menos, são possíveis de serem feitas em outro formato. Sinto que se Pós-F investigasse mais essa linguagem, radicalizasse mais o uso das múltiplas câmeras, radicalizasse mais o uso do pré-gravado sobreposto ao ao vivo, radicalizasse mais na produção/edição/transmissão de imagens, poderia chegar em lugares ainda mais interessantes. Usei bastante a palavra radicalizar, como você deve ter percebido, porque acho que é uma palavra que fala bem sobre Pós-F, o livro, tanto no projeto gráfico quanto nos textos: tem um quê de radical lá que eu acho super massa.

Estou dizendo que é um demérito do espetáculo? Não necessariamente.
Estou dizendo que isso é algo que a equipe talvez queira observar caso planeje voltar ao cartaz, porque tem bastante potencial aí? Sim, se for do interesse da equipe. Quem sou eu pra dizer como ela deve montar o espetáculo dela, afinal?

Por fim, também gosto bastante da cenografia, não só por ela ser bastante bonita, mas porque ela evoca, mais do que emula, a atmosfera do livro, com seus desenhos espalhados e palavras rabiscadas. Ela não só preenche o espaço vazio no palco como confere um tipo de ritmo à cena, fazendo o olho passear por vários lugares da tela. É bem interessante

***

Pós-F se insere na nova onda de espetáculos online (podemos chamá-la de 3a onda, sendo as leituras dramáticas e cenas breves em lives do Instagram a primeira e os espetáculos criados especificamente para Zoom, Youtube, Instagram e outras mídias a segunda? Não sei, talvez) transmitidos diretamente de palcos de teatros que ensaiam a reabertura. Foi o primeiro espetáculo da nova programação do Teatro Porto e o Sesc começa hoje a seguir o mesmo caminho com A Desumanização, direto do Sesc Santana.

Quais investigações surgirão desse novo estágio da produção cultural, quais novos caminhos os artistas e produtores sugerirão e de qual modo isso beneficiará o teatro, seus profissionais e seu público são perguntas que o tempo responderá. Mas quem me lê sabe que eu as considero estimulantes pra caralho.

Texto: Fernanda Young. Adaptação: Caetano Vilela, Maria Ribeiro e Mika Lins. Com Maria Ribeiro. Direção e cenografia: Mika Lins. Iluminação: Caetano Vilela. Figurino e Trilha sonora: Maria Ribeiro e Mika Lins.

Encerrou temporada no Teatro Porto no dia 04.

textos reflexivos de Fernando Pivotto sobre teatro que são tudo, menos uma crítica

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store