Se algumas pessoas têm percebido uma espécie de nova camada de realismo nessa leva de produções transmitidas direto da casa dos artistas — onde cenário se mistura com a casa da pessoa que atua, e a poética da encenação surge da sobreposição ou fricção destes dois campos — é interessante notar como O Desmonte, escrito e encenado por Amarildo Félix e atuado por Vitor Placca, direto de seu próprio apartamento, poderia facilmente se inscrever nesta leva — e o faz, em certa medida, ao mesmo tempo em subverte isso.

Já que O Desmonte narra a história de um homem que não sai há tempos de seu apartamento, e investiga seu universo interior — suas melancolias — junto com o universo imediatamente ao seu redor — o círculo social, o apartamento, o rato que invade a casa — , seria de se imaginar que a versão online se arvoraria na figura de Placca e na relação com sua própria casa. E, ok, a encenação se arvora. Mas leva isso adiante.

Bem-resolvido em seu potencial audiovisual, O Desmonte extrapola o realismo e entra na seara de um grotesco à la A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector, aqui expondo visualmente o mal-estar de seu protagonista. O uso do filtro roxo que tinge as cenas descola a narrativa do realismo tal qual estava sendo experimentado em outras produções e desloca o espetáculo rumo ao… fantástico? grotesco? não-natural, com toda a certeza — e, nisso, nos ajuda a penetrar a intimidade do personagem investigado.

Vale a pena prestar atenção nas soluções visuais encontradas pela equipe de O Desmonte para potencializar a experiência: o filtro de cor que não só tinge a cena como interfere na luz, a sobreposição da figura do rato à de Placca na cena do fogão (ótimo posicionamento de câmera, aliás), a deformação da câmera na citação ao olho-mágico, a ressignificação dos recursos presentes na encenação analógica do espetáculo (o video do Mickey e as projeções de Flavio Barollo)… são pequenos detalhes e cuidados que tornam a versão online de O Desmonte bem interessante.

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Assistindo à versão online de O Desmonte, fiquei com a impressão de que todos os efeitos visuais da encenação me remeteram ao Instagam. Me parece que eu já vi todos aqueles filtros ou efeitos nos Stories de alguém. Assim, fiquei pensando no quanto O Desmonte me parece ter uma encenação não cinematográfica, como disse da encenação de A Desumanização, no texto anterior, mas “instagramáfica”, na falta de termo técnico melhor.

Aqui não há nenhum juízo de valor, nem demérito. Também não sei se há uma intencionalidade por parte dos artistas envolvidos, e não é esse o ponto que eu debato. O que me parece é que a estética encontrada em O Desmonte ressoa também na estética instagrammer, com seus filtros, efeitos e tipos de lentes gerados virtualmente, e me pergunto se esta não é uma visualidade específica dos anos 2010 em diante (do surgimento do Snapchat ao advento dos Insta Stories nos últimos anos da década passada).

Não falo aqui de uma prática de transmitir nosso cotidiano via redes sociais, videos curtos e selfies, de postar nossas dores e angústias para desconhecidos — afinal, me parece que essa não é a prática do protagonista do texto. Penso, de fato, na visualidade alcançada via filtros e softwares, de alguma sofisticação visual ao mesmo tempo, muito simples e relativamente acessível.

Neste sentido, me parece muito interessante que o teatro virtual esteja também se inspirando na/se apropriando da visualidade das redes sociais. Me parece que abrem vários caminhos interessantes tanto nas artes cênicas quanto nas videoartes e nas performances de mídias sociais.

O Desmonte. Crédito: Letícia Godoy

O DESMONTE

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e direção: Amarildo Felix
Atuação: Vitor Placca
Direção de arte: Antonio Vanfill
Iluminação: Thiago Capella
Videoarte e Plataforma Ao Vivo: Flávio Barollo
Produção: Gabrielle Araújo
Fotos: Letícia Godoy
Realização: Caboclas Produções

De 17 de setembro a 30 de outubro de 2020 | Quinta a sábado, às 20h*
* As sessões serão exibidas ao vivo e não ficarão registradas no canal
Acesso gratuito | Onde: YouTube.com/caboclas e Facebook.com/odesmonte | Duração: 40 min. | Classificação: 14 anos

textos reflexivos de Fernando Pivotto sobre teatro que são tudo, menos uma crítica

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