O subtítulo “uma viagem cênico-cibernética” é uma ótima chave de acesso para Clã_destin@ , experimentação cênica virtual dos Clowns de Shakespeare que tem segue temporada até sexta, 28. “Cênico-cibernética” acho que é meio auto-explicativo: é uma experiência tecnomediada mas criada por artistas da cena e a partir de procedimentos teatrais. Já “viagem” sugere ao espectador uma travessia, uma jornada, um deslocamento, mas também dá o tom de que se trata de uma “viagem” no sentido coloquial da palavra, é uma piração.

Ok, ok, esse segundo subtexto sou eu quem estou dando. Mas faz sentido: Clã_destin@ é uma viagem, uma piração, um experimento (como basicamente tudo que estreou nas terras virtuais do Zoom, YouTube e Whats nesse 2020) e muito da sua graça está justamente nisso.

Na dramaturgia, estamos quase 30 anos no futuro e de algum modo as coisas estão ainda piores do que atualmente, mas um grupo propõe um encontro clandestino que significa um conforto nesses tempos áridos — mas a viagem até o ponto de encontro não é tão fácil.

Mais ou menos como o Magiluth em sua primeira investida virtual, Clã_destin@ é uma proposta multiplataformas conduzida pelo Whatsapp, Instagram e Zoom — coisa que tem potencial imenso para o desastre mas que é administrada com agilidade e desenvoltura pelo elenco. Coisa essencial para o êxito da experiência, a explicação de como tudo ocorrerá, quais são os acordos, como devemos proceder pra que tudo role como o planejado é feita de maneira simples, direta e acolhedora, o que deixa a transição de um aplicativo para o seguinte bem azeitada, sem truncar o ritmo ou prejudicar a dramaturgia. (aliás tenho achado divertido perceber, em todos os experimentos que ando assistindo como, nesse momento de encontros virtuais, artistas e público têm feito novos acordos, descoberto novas convenções e etiquetas, e como esse “tutorial” é parte essencial da experiência — seja como prólogo da obra, seja incluído nela; Essa questão rende boas discussões sobre formação de plateia, acessibilidade, possibilidades de campos expandidos de dramaturgia, os esforços que os artistas têm feito para atingir seus públicos atualmente e se/como isso se dará no futuro… mas falo sobre isso outra hora, voltemos ao assunto principal)

O fato é que os Clowns fazem parecer fácil o uso dos aplicativos e a interação a partir deles. Veja, quando eu assisti à sessão, estava um frio do caralho e tudo o que eu realmente queria era ficar embrulhado em três agasalhos e um cachecol (provavelmente uma toca também) mas algo na capacidade de sedução deles, tanto nos dois dias que antecederam à sessão quanto na sessão em si me cativou o bastante para eu a) topar abrir a cam e ficar minimamente apresentável da cintura pra cima; e b) topar interagir ativamente com a pessoa do outro lado da tela. Ou melhor, algo na sedução deles me faz passar de topar interagir com a pessoa para gostar de interagir.

Isso é essencial porque, afinal, Clã_destin@ é sobre se encontrar. Sobre o prazer de se encontrar e de como isso é uma potência transformadora. O poder que existe ao se reunir com as pessoas ao redor de uma obra de arte e celebrar: celebrar o encontro, a arte, a celebração em si. Se os tempos são áridos, a celebração e o encontro são ainda mais necessários para que cheguemos a lugares menos difíceis.

Me parece — e digo isso como alguém que tem assistido bastantes iniciativas cênicas tecnomediadas — que começamos a ultrapassar o clichê de “teatro virtual não é teatro porque teatro é encontro” e chegamos numa nova discussão que é: como promover uma possibilidade de encontro dentro das atuais circunstâncias e com as tecnologias possíveis? Magiluth e Pequeno Ato fizeram isso, como escrevi a respeito em textos anteriores, e Clowns de Shakespeare também fazem. Existe o encontro — algum tipo dele — no Zoom, mesmo com todas suas imperfeições e limitações. Ou talvez exista o encontro inclusive com as imperfeições e limitações.

Existe alguma beleza e força no fato de nos encontrarmos no Zoom, cada um na sua casa, pra ouvir poesia e dançar Macarena. Mesmo que não seja o encontro que a gente queria, mesmo tudo voltando ao normal quando a videoconferência é finalizada, existiu algo ali, e o fato desse algo ser agridoce, incompleto, só o torna mais bonito. Porque foi um encontro possível, ainda que não o ideal e criar as possibilidades de encontros é de fato um exercício revolucionário e um dos usos possíveis das artes.

Também acho interessante o modo como a playlist da festa segue disponível para os festeiros depois que o encontro termina: é uma estratégia para prolongar a experiência, fazer o encontro existir em outra esfera e outro tempo.

Acho bacana isso, esses esforços dos coletivos teatrais de encontrar novos meios de se encontrar com o outro nessas plataformas aparentemente esvaziadas de poesia, como mensageiros ou provedores de videoconferência. Magiluth fez, Clowns também, a Digna vai estrear sua própria proposta logo logo e meu coletivo também (perdão pela publi). Todos tentando ressignificar as plataformas e repensar as distâncias e o próprio conceito de encontro e de presença.

Enfim, uma viagem.

Clã_destin@: uma viagem cênico-cibernética
Temporada até 28 de agosto.
Informações sobre horários disponíveis e aquisição de ingressos em instagram.com/teatroclowns

textos reflexivos de Fernando Pivotto sobre teatro que são tudo, menos uma crítica

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