Quem me cantou a bola de que A Desumanização, espetáculo dirigido pelo José Roberto Jardim a partir do livro de Valter Hugo Mãe, foi o José Cetra, um dos caras que mais entende de teatro. E se o Cetra falou, eu que não ia perder.

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A coisa que mais me chamou a atenção no último trabalho de Jardim (Há Dias Que Não Morro, com as Ultravioletas, uma das melhores coisas que eu vi esse ano e sobre a qual já escrevi aqui) é o rigor estético e como isso representa uma chave de acesso essencial para sua poética. Em Há Dias, tudo era opressoramente marcado e regrado, até atingir o ponto de ruptura. Me parece que isso continua em voga na versão de A Desumanização apresentada ontem, ao vivo, direto do palco do Sesc Santana, via streaming, cujo registro permanece disponível no Youtube do Sesc Ao Vivo (vou ser muito legal e deixar o link aqui. De nada.).

Vejo semelhança nos dois trabalhos primeiro porque Jardim tem um rigor e uma precisão bastante perceptíveis, apesar de uma aparente simplicidade (perceba o contraste das atrizes, relativamente soltas, sentadas na plateia, versus o balé da capitação de imagens: diversas câmeras espalhadas pelo espaço, algumas fixas no tripé, outras móveis, e a mesa de edição que elegia quais imagens serviam melhor à narrativa em determinado momento — vou citar como exemplo aqui a passagem em que uma das atrizes cita a solidão, e o take elegido é o das duas sentadas, à distância, sozinhas na plateia escura; e o momento em que alguém fala que Deus eventualmente vai mudar tudo de lugar, e vemos as luzes no palco se movendo, tudo também mudando de lugar, o palco como metáfora do Universo; são ambos momentos até que simples, mas muito felizes.)

E outra coisa que me chama a atenção é o modo como A Desumanização em seus cerca de 40 min vai do ponto A ao ponto B. De uma possível “frieza” ou “distanciamento” (ou talvez a palavra que melhor se encaixe seja “imobilidade”, vou deixar as três aqui pra você decidir qual prefere, leitor) no começo, com elas sentadas ali, a câmera mantendo uma distância, relativamente parada; para um caos quando elas sobem no palco, a câmera na mão que as acompanha, muito perto (quase perto demais), os contrarregras que passam entre elas, os cinegrafistas que que agora também são filmados com as suas bizarras roupas hazmat descartáveis. Um caos, uma estranheza, uma novidade empolgante e uma grande subversão das regras impostas anteriormente — e o que isso representa na jornada da(s) protagonista(s).

Me lembrou, em certa medida, o arco em Há Dias… Se você viu ambos, leitor, me conta se você sentiu isso também.

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No post de ontem eu disse que percebo que estamos entrando (talvez desde agosto) numa terceira onda do teatro online, onde os espetáculos passam a ser transmitidos direto dos palcos — Sesc começou com isso em A Desumanização, o Teatro Porto Seguo com Pós-F.

A Desumanização é quase um média-metragem cênico ao vivo, ao passo que Pós-F é um monólogo à la TEDTalk. Ambos empregam múltiplas câmeras e uma edição que aproxima e tensiona ainda mais o teatro e o audiovisual. Há de se ver o que os próximos artistas a ocuparem esses palcos trarão para a discussão do teatro online e de suas possibilidades.

Ainda não dá pra dizer com muita certeza o que esse momento vai significar para o teatro pós-pandemia. Voltar ao analógico? Radicalizar o flerte com o streaming e a interatividade? O streaming permanecerá uma opção, pela hipermobilidade?

As perguntas ainda permanecem. Como disse no post de ontem, continuo achando-as bastante estimulantes.

A Desumanização
Elenco: Fernanda Nobre e Maria helena Chira
Diretor: José Roberto Jardim
De: Valter Hugo Mãe

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